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sábado, 1 de maio de 2021

 O galo Cocoricó


       Era um longo, estreito e escuro corredor de acesso à moradia do zelador do prédio. De cada lado havia portas guardando os medidores de gás e luz dos moradores do prédio.

Na frente havia uma porta de ferro e vidros voltada para a larga calçada da Cupertino Durão, rua de classe média do bairro do Leblon, onde na década de 50 havia muitos casarões e poucos edifícios.

A moradia do porteiro era um cômodo de doze metros quadrados com uma cozinha e banheiro pequenos, com um quintal nos fundos pouco frequentado, pois os moradores do prédio jogavam lá todo o tipo de porcaria.

Às vezes via-se sobre um banquinho na cozinha uma bacia de alumínio reluzente com louças e panelas igualmente reluzentes depois de areadas com esmero pela mulher "mulata", bonita e magrela. Muito caprichosa, mantinha tudo muito limpo e com paninhos bordados para enfeitar a humilde moradia.

Com sua filha de cinco ou seis anos, uma negrinha franzina, mas muito bem cuidada, foi fazer parcas comprinhas na feira e resolveu levar dois pintinhos que estavam em oferta. Um para ela ela, uma fêmea, e outro para a criança, o Cocoricó.

O marido não gostou nada daquela história de pintinhos andando pela casa. Implicava com os bichinhos. Ao chegar à casa após a faxina matinal no prédio, ele atirava o chapéu de palha na direção deles, que saiam correndo, pulando e cacarejando.

Havia um espelho enorme num canto da casa, usado pela costureira no atendimento às freguesas. Os pintinhos, agora franguinhos adoravam bicar o espelho. Acredito que achavam que tinha outros franguinhos nele.

A fêmea teve algum tipo de paralisia, ficou manca e logo morreu. Cocoricó virou um lindo galo carijó. Cantava muito e isso começou a incomodar os vizinhos patrões.

Pressionada pelo marido e pela condição de mulher do empregado do prédio, um certo dia, a mulher resolver doar o galo para uma freguesa rica que convenceu a menina a deixar o Cocoricó para a sua fazenda, onde teria mais espaço e liberdade.

A menina chorou muito , mas estava decidido. O galo se foi.

Foi com muita dor e tristeza que a menina descobriu, após algum tempo, ao ouvir uma conversa entre a costureira e a freguesa, que o galo estava delicioso.

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